24/12/2008 – Rastreando as raízes do papai Noel na Igreja Primiva
O primeiro Papai Noel tem suas raízes na igreja. Seu nome era Nicolau, bispo de Myra (uma antiga cidade na costa do Mediterrâneo, atual região da Turquia). Além do fato dele ter vivido no quarto século, muito pouco se sabe sobre ele, historicamente, ainda que, na tradição oral, muito seja dito a seu respeito. Alguns alegam que ele tenha participado do Concílio de Nicéia, em 325 d.C., a despeito dos documentos existentes não registrarem sua presença entre os bispos listados naquele episódio.
Myra era uma cidade portuária chave para a entrada e saída de navios de Roma, Egito e Bizâncio. Paulo parou ali em sua viagem para Roma (Atos 27. 5-6). Nicolau é tido como aquele que salvou Myra da fome ao apreender grãos que iam para Bizâncio, saídos do Egito. Como o roubo da carga nunca foi tido como falta, tal feito foi considerado um milagre e o bispo foi considerado o santo patrono dos marinheiros.
O segundo “milagre” associado a Nicolau foi o passo para que ele se tornasse a inspiração por detrás do Papai Noel. De acordo com a tradição, uma pobre família de Myra tinha três filhas que haviam sido cortejadas para casamento, mas que não tinham dote. Isso fazia com que as jovens vivessem fadadas à vergonha e, possivelmente, à prostituição. O bom bispo assumiu a responsabilidade de ajudá-las, anonimamente, deixando sacolas com ouro em sua casa – há quem diga que tenha sido em meias penduradas para secar. Garantindo seus dotes – e, assim, seus direitos de casarem-se – ele as resgatou de um degradante destino. Quando Nicolau foi identificado como o autor daquele ato de bondade, ele passou a ser venerado por sua generosidade. Como resultado disso, tornou-se, também, o santo patrono das crianças.
Ele morreu em 6 de Dezembro de 345 ou 352 d. C., e foi sepultado em uma pequena igreja em Myra. Todavia, a história do que ele se tornou após sua morte é ainda mais interessante do que os relatos do que realizou durante sua vida.
Naqueles dias, os corpos dos homens santos eram de imenso valor, tanto por razões religiosas como por comerciais. Então, em 9 de maio de 1087, marinheiros de Bari, cidade portuária ao sul da Itália, invadiram Myra e roubaram os restos de Nicolau. Até hoje os ossos do bispo permanecem em Bari. O assalto transferiu efetivamente o mistério e a mágica da tradição oral em torno de Nicolau do Oriente para o Ocidente. Foi o primeiro passo na transformação do piedoso bispo em um onisciente astro.
Não levou muito tempo para que as histórias ocidentalizadas do Nicolau encontrassem espaço na história de cada país em seus contextos e tradições. Na Alemanha do século dezesseis, por exemplo, as Igrejas Reformadas baniram a celebração da festa de São Nicolau, em 6 de dezembro. Ao invés disso, elas procuraram enfatizar que o menino Cristo, ou Christkindlein, assumindo o papel do Nicolau, trouxe presentes para as crianças na véspera do natal. Esse papel evoluiu para “Kriss Kringle” [Papai Noel], que era aproximadamente a mesma figura mítica em torno de Nicolau.
A tradição holandesa por detrás do “Sinterklaas” [Papai Noel] é o mais direto elo com o moderno Papai Noel americano. A figura mítica supostamente viajou da Espanha com um Mouro chamado Black Peter, e encheu os sapatos das crianças com amendoins e doces. Papai Noel tinha a incrível habilidade de descobrir se as crianças haviam sido boas ou más.
Alemães, holandeses e pessoas de outras nacionalidades trouxeram suas tradições acerca do Nicolau quando vieram para o Novo Mundo. Uma vez estabelecida nos Estados Unidos, a comunidade embelezou o mito e o colocou nos padrões que são conhecidos atualmente. O Papai Noel americano foi moldado pelo poema de criança do professor do Union Seminary Clement Clark Moore em 1892, intitulado “A visita de São Nicolau”, que começa com a frase “Na noite antes do Natal…”. No começo do século vinte, o Papai Noel apareceu em lojas de departamento tendo casas que seriam suas “sedes oficiais”. Os correios, então, passaram a receber inúmeras cartas de crianças, endereçadas para o Pólo Norte.
O Papai Noel dos nossos dias, em sua manifestação mais secular, está dissociado das motivações reais do verdadeiro Nicolau. Todavia, ele ainda personifica bondade e um tipo de justiça, o que pode explicar a sensação de temor de algumas crianças quando estão em sua presença. A evolução da historia de Nicolau, além de atestar o espírito de inovação empresarial, traz à tona a impressionante necessidade do povo de acreditar em algo e de celebrar algo maior do que eles. Ainda que isso signifique usar a imaginação.
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